Paul Bergamin (1848 - 1921)

Paul Bergamin nasceu em 1848, na localidade de Schluein, cantão suíço de Grisões, filho de Blasius Bergamin, industrial hoteleiro, e de Maria Ursula Bergamin, doméstica. Chegou a Portugal no final da década de 1870 para se estabelecer no Hotel Bragança, situado na Rua do Ferragial de Cima (atual Vítor Cordon) em Lisboa, um dos melhores hotéis do país, à época. Paul Bergamin permanece alguns anos em Lisboa e em 1882 aposta forte no Entroncamento da Pampilhosa, pequeno lugar que o comboio acabava de colocar no mapa. Nesta localidade inicia a sua atividade com a exploração, por concessão, do bufete da estação do caminho-de-ferro, mas a sua iniciativa empresarial depressa se estende ao Buçaco, Luso e Coimbra. Individualmente, ou em sociedade, viria a ter uma atividade hoteleira digna de registo, particularmente no que se refere à exploração do Grande Hotel do Buçaco, que iniciou provisoriamente em 1899, e em definitivo a partir de 1907, com contrato até 1926. Concessão que viria a ceder a Alexandre d’Almeida, em 1920.

Acompanhou Paul Bergamin, na sua viagem para Portugal, a sua irmã Paulina Bergamin (1863-?) e supostamente o seu pai, pois encontram-se em postais ilustrados antigos do Porto as seguintes inscrições: «Editor: Blasins Bergamin Arrendatário do Restaurante». Assim supõe-se que o concessionário do restaurante da estação de Campanhã seria o pai de Paul, pois poderá existir aqui um erro de impressão (Blasins/Blasius).

Em Lisboa Paul Bergamin fixa morada na freguesia da Nossa Senhora dos Mártires e vem a casar em 1879, na Ericeira, com Adelaide Maria Albuquerque (1854-1918), doméstica, natural da Ericeira, Mafra. O nome que adota em Portugal, como consta em documentos oficiais, é de Pedro Paulo Bergamin, embora o próprio assine frequentemente com o seu nome original, Paul Bergamin. As referências à atividade de Paul Bergamin são diversas, tais como: pasteleiro, diretor de uma cadeia de hotéis de Lisboa, organizador de banquetes da família real, cozinheiro do rei D. Luís, etc. Mas a designação mais consistente é a de Chef, cozinheiro/pasteleiro, especialidade que acumulou com o desempenho de administração hoteleira. Em 1882, a família Bergamin instala-se na Estação do caminho-de-ferro da Pampilhosa, começando por fazer uma série de investimentos. Adquire vários terrenos, uns por compra direta, outros por aquisição de heranças e também por hipotecas de empréstimos, que se estendem desde a zona da ribeira do Entroncamento (atual Jardim Municipal), até à Lagarteira (Fonte da Pipa). Procede também à aquisição de vinhas e pinhais no Areal.

Em 1882/3 edifica o Chalet Suíço (Suísso), em frente à estação, bem como um conjunto de infraestruturas à sua volta, de apoio ao negócio: casa de telégrafo e postal, padaria, armazéns, casa de abegoaria, garagem e cocheira.

Em 1883, no dia 25 de setembro, nasce a primeira filha, Maria. Em 1886, no dia 10 de abril, o casal Bergamin perde o segundo filho à nascença. A sua irmã, Paulina Bergamin, casa com Jacinto Assunção Ferreira Xavier de Noronha (1862-1930), primeiro chefe da estação Norte da Pampilhosa, natural de Formoselha, freguesia de Santo Varão (Montemor-o-Velho). Em 1903, a filha de Paul Bergamin, Maria Adelaide d’Albuquerque Bergamin, com 20 anos de idade, casa com Feliciano d’Oliveira Rocha (1877-1926), filho de Feliciano Rodrigues da Rocha, industrial (sócio de António de Almeida e Costa e Joaquim Teixeira Lopes na Fábrica das Devesas, com sucursal na Pampilhosa) e Antónia Maria d’Oliveira, doméstica.

Em 1918 é noticiada a morte da esposa de Paul Bergamin no jornal Bairrada Elegante: «faleceu no Bussaco esta senhora, esposa do sr. Paulo Bergamin, arrendatário do Palace Hotel e antigo cozinheiro do rei D. Luiz e sogra do sr. Feliciano Rocha, gerente daquele importante estabelecimento».

Em 1921 a morte de Paul Bergamin consta da necrologia publicada n’O Século de 13 de maio: «faleceu no Palace Hotel do Bussaco o sr. Paul Bergamin, ex-proprietário do mesmo hotel e durante muitos anos proprietário do restaurante da estação da Pampilhosa». Paul Bergamin faleceu de coma diabético. Foi sepultado no cemitério novo do Luso, com termo de concessão lavrado em 23 de agosto do mesmo ano, em nome de Alexandre d’Almeida, sepultura perpétua n.º 16, no talhão 3. Presume-se que se tenham cumprido as condições colocadas na escritura de cedência de concessão: permanecer no Hotel, com tratamento de hóspede até ao último dia. O facto de ter sido sepultado no Luso, a custos de Alexandre d’Almeida, e não ter sido trasladado para o jazigo de família no cemitério da Pampilhosa, leva-nos a supor que as relações familiares, desgastadas nos últimos anos, não se restabeleceram até à sua morte, contribuindo igualmente para o apagamento da sua memória. Lembrando Paul Bergamin resta o edifício do Chalet Suíço, cuja reabilitação é importante, símbolo da atividade económica hoteleira instalada na Pampilhosa há mais de 130 anos.

Adaptado de um documento da autoria de Mário Rui Cunha publicado na revista “Pampilhosa. Uma Terra e Um Povo” n.º 35 - GEDEPA 2016

Abel Godinho Lopes Carreira (1860 - 1944)

Abel Godinho Lopes Carreira foi o primeiro farmacêutico da Pampilhosa. Estudou na Universidade de Coimbra, tendo obtido o respetivo diploma em 1883. Era filho de Francisco Godinho, o primeiro boticário da vila. Lopes Carreira abriu a sua farmácia na atual Rua da República, num prédio entretanto demolido para dar ao atual prédio "Pires Faria". É pai de Germano Godinho (1900-1977).
É considerado o primeiro “homem do barro” da terra. Criou a Cerâmica Excelsior, conhecida popularmente por Fábrica Navarro, que durante várias décadas se manteve em laboração, muito tendo contribuído para o desenvolvimento industrial da Pampilhosa e para a promoção social das suas gentes.
Retrocedemos até 1860, dia 9 do mês de abril, e vamos comemorar o nascimento de Abel Godinho Lopes Carreira. Filho legítimo do boticário da Pampilhosa, Francisco Godinho, e de Maria Joaquina, ambos dessa terra. Era neto paterno de José Francisco Godinho e de Mariana da Conceição e materno de Francisco Lopes Carreira e Ana Maria Joaquina.
Aos 18 dias de abril foi batizado na igreja paroquial da Pampilhosa pelo padre Francisco Rodrigues, pároco encomendado da mesma freguesia. Foi padrinho João Loureiro, casado, lavrador da Pampilhosa, e madrinha Maria Godinho, moradora no lugar do Travasso, freguesia da Vacariça. São muitos os parentes ligados ao Travasso, cujos nomes desapareceram com o rodar dos tempos.
Francisco Godinho possuía a botica na rua principal da Pampilhosa, onde se encontrava sua casa de habitação que lhe fora vendida por António dos Santos Barrocas. Era dos poucos pampilhosenses que não era analfabeto. Encontrámos documentos (escrituras de vendas de propriedades e outros), que somente tinham a sua assinatura. Poucos sabiam assinar documentos.
A botica normalmente fechava a altas horas da noite. Consistia num laboratório farmacêutico onde se compunham, conservavam e vendiam drogas simples e se preparavam medicamentos compostos com plantas medicinais. “Eu me via na feyra, ribeyra, na botica, na tenda, na taverna, no açougue, em casa do pasteleiro e na confeitaria”.
Se a origem social dos mágicos era humilde, o mesmo não se poderá afirmar de todos os seus clientes. As clientelas dos mágicos eram maioritariamente pessoas do nível social deles, de baixa condição, portanto, mas o poder de atração de seus serviços não se confinava aos setores mais humildes. Entre os “grandes” também havia quem os consultasse. Os seus atos também eram procurados por muitos membros do clero, da aristocracia e até do partido médico.
Francisco Godinho, cujo único filho era Abel Godinho Lopes Carreira, fez com que este passasse a dirigir-se para Coimbra com a finalidade de tirar o Curso de Farmácia, algo de que ele não tinha tido possibilidade.
Abel Godinho Carreira viveu as causas da iniciativa e do progresso numa luta incansável pela valorização da sua terra. A importante obra realizada fica para o futuro como um marco indelével da história da Pampilhosa.
Faleceu na Pampilhosa em 1944.

Texto de Alice Godinho Rodrigues, em http://www.jornaldamealhada.com/noticia/6435

Fialho de Almeida (1857 - 1911)

José Valentim Fialho de Almeida nasceu no dia 7 de Maio de 1857, na Vidigueira (Vila de Frades), no Baixo Alentejo, filho de uma família abastada. Seu pai, Mestre-Escola, chamava-se Valentim Pereira d’Almeida e sua mãe Mariana da Conceição Fialho.
Concluiu a instrução primária e prosseguiu estudos num colégio de Lisboa, entre 1866 e 1871. Neste ano, após ter feito os exames do Colégio Europeu ao Conde Barão, entrou como boticário na Farmácia do Altinho ou de Peça.
Por esta altura, começa a escrever os primeiros ensaios, como por exemplo o folhetim “Ellen Washington”.
Entretanto, decide continuar os estudos com o objetivo de se tornar doutor. A 18 de outubro de 1878 entrou na Escola Médico-cirúrgica, tendo terminado o curso de medicina em 1885. Em 1893 volta à sua terra-natal, onde desposou uma senhora abastada, Emília Augusta, que faleceu no ano seguinte e da qual não teve descendência. Nessa altura vem para a Pampilhosa em comissão médica, no “Lazareto”, à “Lagarteira”, onde hoje se situa a Capela de Nossa Senhora de Fátima, por motivo da epidemia vinda de Espanha (provavelmente a pandemia de gripe de 1889-1890, que resultou em várias ocorrências até 1895).
Destacam-se dois dos seus contos: “O filho” e “A velha”, de “Contos” (1881). Outras obras da sua autoria publicadas são: “A Cidade e o Vício” (1882), “Os Gatos” (1889-1894), “Lisboa Galante” (1890), “O País das Uvas” (1893), “Galiza” (1905), “Saibam Quantos...” (1912, postumamente), “Ave Migradora” (1914, postumamente) e “A Taça do Rei de Tule e Outros Contos” (2001, postumamente).
Na obra “O País das Uvas” surgem referências à Estação do Caminho-de-Ferro da Pampilhosa.
Fialho de Almeida faleceu a 4 de março de 1911, aos 53 anos, em Cuba, onde foi sepultado. Especula-se que a sua morte terá sido por suicídio, pois na edição do jornal “O Operário” (Beja), de 12 de março de 1911, surge a publicação: «Mortos ilustres – Fialho d’Almeida: Informam-nos de haver falecido em Vila de Frades, em virtude de se ter envenenado, este grande escritor». Porém, no registo de óbito nada consta sobre a causa de morte.
A Pampilhosa, em sua homenagem, deu o nome de Fialho de Almeida a uma das ruas da Vila (via que liga a "baixa" à "Lagarteira").

Adaptado de https://diariodoalentejo.pt/pt/noticias/9545/fialho-de-almeida-questoes-de-natureza-familiar.aspx

Adriano Teixeira Lopes (1870 - 1933)

Adriano Teixeira Lopes nasceu no dia 3 de setembro de 1870 em São Mamede de Ribatua (Alijó), um dos três filhos de João Teixeira Lopes, “mestre de escultura”, e de Marcelina Cardoso Garrote.

A 28 de janeiro de 1899, então com 28 anos, casa na Igreja Paroquial de Botão com Laura Soares Leite, costureira de profissão, de 21 anos de idade, filha de Fernando António Soares e de Amélia Augusta d’Oliveira Pereira Leite. Foram testemunhas presentes o escultor António Teixeira Lopes e Abílio d’Oliveira Rocha.

Adriano Teixeira Lopes enviuvou a 11 de fevereiro de 1904, voltando a casar mais tarde com Laurinda de Jesus (1902-1943), filha de António Domingos e Maria Esperança de Nossa Senhora, residentes em Larçã. Ela, mais nova 32 anos, era afilhada de batismo de Adriano, e o casamento civil terá ocorrido entre o nascimento da primeira filha, Julieta Teixeira Lopes, e do segundo filho, Francisco Júlio Teixeira Lopes.

Curiosamente, os três irmãos casaram com três irmãs, sendo que o casamento de Júlio Teixeira Lopes com Andrelina Soares Leite e o de Joaquim Teixeira Lopes com Dulce Soares Leite ocorreram no mesmo dia, 30 de junho de 1900, também na Igreja Paroquial de Botão.

Adriano frequentou o curso de Arquitetura, segundo o Inventário Alumni (1836-1957) da Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto.

Segundo o seu filho, Francisco Júlio Teixeira Lopes, o seu pai não concluiu o curso de Arquitetura porque o seu projeto final de curso foi chumbado. Desiludido e injustiçado, virou a sua atenção para o projeto industrial que tinha em mente executar, na Pampilhosa, com o seu primo arquiteto José Teixeira Lopes e os irmãos Júlio e Francisco Bastos Mourão. Desconhecem-se as habilitações académicas dos seus irmãos, Júlio e Joaquim. Conta-se que Adriano Teixeira Lopes era um homem discreto e de grande sensibilidade artística, bem patente no traço arquitetónico da casa, que construiu na rua Joaquim da Cruz, reconhecida como uma das mais interessantes da Pampilhosa, e que incorpora, numa das paredes frontais, um retábulo do séc. XIII, que podemos encontrar descrito por Maria das Dores Sousa Cristina na revista “Pampilhosa, Uma Terra e Um Povo” n.º 1, de 1982.

Na fábrica, Adriano Teixeira Lopes ocupava-se da direção técnica, cargo que manteve até à sua morte. O seu relacionamento com o ramo da família do norte era excelente: tio José Joaquim Teixeira Lopes; primos direitos António Teixeira Lopes (escultor) e José Teixeira Lopes (arquiteto); primo por afinidade Adelino de Sá Lemos (fundidor), com visitas frequentes e colaborações próximas, como no caso da ajuda no elemento escultórico do fontanário no Largo do Chafariz e o projeto da casa de Adriano Teixeira Lopes.

O jornal “Ideia Livre” de 14 de outubro de 1933 anuncia o falecimento de Adriano Teixeira Lopes: «Às primeiras horas da madrugada de segunda-feira última [dia 9 de outubro de 1933] faleceu o sr. Adriano Teixeira Lopes, sócio da firma Mourão, Teixeira Lopes & Cª, com sede no Porto e a fábrica de cerâmica em Pampilhosa.»

ANTÓNIO TEIXEIRA LOPES (1866 - 1942)
António Teixeira Lopes nasceu em Vila Nova de Gaia no dia 27 de outubro de 1866. Filho do escultor José Joaquim Teixeira Lopes e de Raquel Pereira de Meireles; irmão do arquiteto José Teixeira Lopes, seu colaborador em muitos trabalhos e na construção da sua grande casa.

Iniciou a aprendizagem de escultura na oficina de seu pai em 1881. Em 1882 ingressou na Academia Portuense de Belas-Artes, onde foi aluno de Soares dos Reis e Marques de Oliveira.

Em 1885, quando frequentava o terceiro ano do curso, foi para Paris completar os estudos. Ingressou na École des Beaux-Arts, onde teve como orientadores Gauthier e Berthet, obtendo vários prémios. Nos anos seguintes continuou a apresentar trabalhos em exposições (em Portugal e França).

Fez parte da Maçonaria, tendo sido iniciado em 1898 na Loja Ave Labor do Grande Oriente Lusitano Unido, com o nome simbólico de Rude.
Entre 1899 e 1904 executou obras de particular relevo: monumento fúnebre de Oliveira Martins; A História (Cemitério dos Prazeres, Lisboa); monumento de homenagem ao horticultor e floricultor José Marques Loureiro (Jardim da Cordoaria, Porto); monumento de Eça de Queiroz, 1903 (Largo Barão de Quintela, Lisboa, 1907). Realizou também a escultura em bronze de um menino com uma bilha, presente no fontanário (chafariz) na baixa da Pampilhosa, inaugurado em 1915 no largo conhecido atualmente como Largo do Garoto.

Em 1900 participou na Exposição Universal de Paris, tendo obtido um Grand Prix e a condecoração de Cavaleiro da Legião de Honra. Esse sucesso consolidou a sua posição e, em 1901, assumiu o lugar de professor de escultura da Academia Portuense de Belas-Artes, que manteve até 1936 (ano da sua jubilação).

Em 1895, com projeto do seu irmão, construiu o seu atelier na Rua do Marquês de Sá da Bandeira, em Vila Nova de Gaia, onde hoje é a Casa-Museu Teixeira Lopes e onde se preserva uma parte significativa da sua obra.

António Teixeira Lopes é o autor das imponentes portas de bronze da Igreja da Candelária, na cidade do Rio de Janeiro (1901); também do monumento onde repousam os restos mortais de Bento Gonçalves da Silva, na praça Tamandaré, em Rio Grande.

No dia 5 de outubro de 1934 foi agraciado com o grau de Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant'Iago da Espada.
Faleceu em São Mamede de Ribatua, Alijó, no dia 21 de junho de 1942.

Adaptado de um documento da autoria de Mário Rui Cunha publicado na revista “Pampilhosa. Uma Terra e Um Povo” n.º 39 - GEDEPA 2020 e https://pt.wikipedia.org/wiki/António_Teixeira_Lopes

Joaquim da Cruz (1884 - 1975)

Joaquim da Cruz nasceu na Praia do Ribatejo, no concelho de Vila Nova da Barquinha, distrito de Santarém, no dia 17 de setembro de 1884. Era um dos 10 filhos de Thomaz da Cruz, natural de Dornes, do concelho de Ferreira do Zêzere, proprietário e negociante, e de Rosa Maria, natural de Paio de Pele, o nome original da Praia do Ribatejo, doméstica.

Thomaz da Cruz era um dos dois madeireiros da Praia do Ribatejo, da empresa Thomaz da Cruz & Filhos, com fábrica de serração a vapor. Abriu sucursais em Caxarias (Ourém), Carriço (Pombal) e Pampilhosa.

Com a entrada em funcionamento, em 1882, da linha de caminho-de-ferro da Beira Alta, a Pampilhosa começou a transformar-se por completo. A atual parte baixa da Pampilhosa, onde em 1870 não havia qualquer prédio, foi ocupada por algumas fábricas, armazéns e residências em poucos anos. Chegaram a coexistir quatro cerâmicas. A primeira fábrica de serração de madeiras a ser instalada foi a Thomaz da Cruz & Filhos, junto à via-férrea e um pouco a sul da estação, isto no ano de 1905. Ficaram à frente da dita fábrica os irmãos Joaquim e Francisco da Cruz que, desenvolvendo grande atividade, deram grande nomeada à empresa, exportando madeira trabalhada para diversos pontos do País através do caminho-de-ferro. Foi este melhoramento e a consequente instalação de indústrias de barro e de madeira que muito contribuíram para a criação de um polo industrial e populacional da menos populosa Freguesia do Concelho de Mealhada que, em 1880, somava pouco mais de 650 moradores e, em 1910, já perto de 1500.

A esse surto de desenvolvimento sempre esteve ligado o nome de Joaquim da Cruz, com o seu dinamismo e a sua simpatia, levando-o a ser considerado e respeitado na terra. De facto, Joaquim da Cruz, republicano dos quatro costados, democrata e anticlerical, muito cedo se embrenhou na política local, ainda durante o regime monárquico, entusiasmando-se pelo desenvolvimento de uma comunidade que crescia e passou a considerar como sua. Grande benemérito, industrial ativo, dos vultos mais atuantes do Partido da União Republicana no Município, sempre bem-humorado, de espírito e corpo sãos, Joaquim da Cruz era um bom cavaqueador, despretensioso e de sorriso comunicativo. Os seus amigos diziam que, quando calado, atraía, e a falar, encantava. Admirador de António José de Almeida e Norton de Matos, Joaquim da Cruz foi um republicano indefetível. O seu irmão mais velho, Francisco da Cruz, era licenciado em Direito e foi Deputado na I República por três vezes.

Com a implantação da República, em 5 de outubro de 1910, torna-se o Presidente da Comissão Administrativa responsável pelo governo do Município da Mealhada na transição entre regimes. Voltaria a ocupar o lugar, por eleição, em 1911, 1917 e 1919.

Em 1912, por iniciativa de Joaquim da Cruz, nasce o Sindicato Agrícola, para defesa dos camponeses do Concelho, iniciativa que se revelou efémera. O seu trabalho como autarca confunde-se com o período de grande ação política local que se seguiu à implantação da República.

Fez parte da Comissão para a construção de um fontanário artístico (chafariz) que viria a ser inaugurado em agosto de 1915 e que ficou conhecido por Fonte do Garoto, por incluir uma escultura de um menino segurando uma bilha, escultura em bronze da autoria do escultor António Teixeira Lopes. Por ter sido furtado um busto em bronze (dedicado ao Dr. Abel da Silva Lindo), em novembro de 2011, a escultura do menino foi retirada por precaução, colocando-se no seu lugar uma réplica em compósito. A peça original encontra-se no Salão Nobre da Junta de Freguesia.

Fundou, em 1913, a Tuna Recreativa de Pampilhosa, que depois despoleta a fundação da Filarmónica Pampilhosense, em 1920, ainda hoje existente.

Em 1920 teve a ideia de criar, conjuntamente com outros industriais da Pampilhosa, uma espécie de Caixa Mutual, para a que também contribuíram os operários com um pequeno desconto nos seus salários. Como os operários não concordaram, a ideia gorou-se. Entretanto, pese embora com alterações, a ideia voltou a ser tratada por alguns industriais, acabando por ser criada a Associação de Socorros Mútuos 7 de Agosto, em 1921. Ainda apoiou Francisco Mourão na iniciativa da criação da Casa da Sopa dos Pobres.

Em 1923, Joaquim da Cruz e Albano Christina convenceram Joaquim José de Melo a autorizar graciosamente a canalização de água de abundante nascente junto ao pinhal de Gândara, até perto da zona habitacional. Construiu-se então um aqueduto com mais de trinta arcos e essa fonte passou a ser a Fonte do Melo, inaugurada em 1925.

Provavelmente a maior obra de Joaquim da Cruz para os pampilhosenses foi a Escola Democrática Thomaz da Cruz, custeada por ele e pelo seu irmão Francisco, e a que deram o nome do progenitor. A empresa ofereceu o terreno e custeou as obras de edificação – cuja inauguração aconteceu em 1923 – e futuras ampliações. Foi ali que durante décadas parte dos pampilhosenses tiveram acesso à instrução (outros tinham na velha Escola do Freixo, na parte alta da aldeia).

No dia 8 de dezembro de 1923 Joaquim da Cruz casou na Figueira da Foz com D. Maria Rita dos Santos Carvalho, filha de Manuel José de Carvalho e irmã de Joaquim Carvalho, da Figueira da Foz.

Em 1924 ajudou à criação do Pátria Foot-Ball Club e deu apoio a Adriano Teixeira Lopes e Joaquim Pires na formação da Empresa Cinematográfica Pampilhosense, da qual inicialmente foi sócio.

Por essa altura, Joaquim de Cruz defendia tornar-se imperioso construir um Bairro Operário e aprovar um plano geral de urbanização, dado o seu crescimento populacional, industrial e comercial, melhorando os arruamentos e o asseio. Chamou a atenção para a falta de critérios nas edificações, necessidade de abertura de novas ruas e construção de uma “passerelle” sobre as linhas para acesso à Estação. Também apelou aos proprietários para construírem edifícios com bom gosto, para que, futuramente, a Pampilhosa fosse mais atraente. Ele mesmo mandou construir um belo e grandioso edifício, junto à fábrica de serração, edifício a que deu o nome de sua mãe, a Vila Rosa. Ainda hoje é um belo chalet, conquanto semiarruinado, por longo abandono. À sua custa, mandou plantar várias árvores nas orlas das estradas da Freguesia de Pampilhosa.

Em 1926, quando se pensou em fundar uma corporação de bombeiros, Joaquim da Cruz logo deu o seu incondicional apoio e, com Adriano Teixeira Lopes, encabeçou a Comissão Organizadora para a fundação da Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Pampilhosa. Na primeira eleição, ficou a presidir à Assembleia-geral. Depois, por vários anos, Presidente da Direção e Primeiro Comandante, tendo colocado à disposição dos Bombeiros, graciosamente, um seu armazém que serviu de Quartel durante quinze anos. Em 1931 vendeu à Associação o seu automóvel, um Turcat-Méry, pelo preço simbólico de três mil escudos. Passou a ser o Pronto-Socorro n.º 1.

No período que se seguiu à II Guerra Mundial, principalmente no início dos anos de 1950, a crise acentuou-se e as fábricas da Pampilhosa foram aos poucos encerrando a sua atividade. Vários ferroviários emigraram para África, outros para França, a população pampilhosense reduz-se, continuando, no entanto, a ser a mais elevada das Freguesias do Concelho de Mealhada.

Joaquim da Cruz, que, lentamente se vinha afastando da vida ativa, social e económica, encerra a fábrica de serração. Acaba por vendê-la, conjuntamente com a Vila Rosa, à Sociedade de Adubos Ceres.

Joaquim da Cruz faleceu na Pampilhosa no dia 3 de agosto de 1975. Está sepultado na sua terra natal, Praia do Ribatejo.

Adaptado de http://www.nunocanilho.pt/tag/pampilhosa/