A Associação de Socorros Mútuos «7 de Agosto»

A Associação de Socorros Mútuos «7 de Agosto», que já não existe na atualidade, foi criada como associação e registada no dia 31 de outubro de 1940. Construído o edifício na atual Rua da Feira, ainda antes da data da constituição efetiva da Associação, durante muitos anos prestou aos seus associados cuidados médicos, entre outros serviços. Depois de extinta a Associação, uma comissão de pampilhosenses levou a cabo a tarefa de reconstrução do seu edifício, que foi entregue à Junta de Freguesia de Pampilhosa.

Atualmente alberga a Associação Desportiva e Cultural dos Pescadores da Pampilhosa, no primeiro andar, e a Delegação do Concelho de Mealhada da Cruz Vermelha Portuguesa, no rés-do-chão.

O Edifício da «Casa dos Pobres»

Em 1939 foi criada uma “Comissão de Assistência aos Pobres da Freguesia da Pampilhosa” para “acabar, dentro do possível, com esta miséria, facultando aos pobres desta freguesia o pão que até agora têm andado esmolando pelas portas.”
Uma circular, datada de dezembro de 1938, expunha assim o problema:

«Em Pampilhosa, centro industrial e comercial cada vez maior, há também muitos quadros de miséria. Veem-se todos os dias crianças famintas estendendo a mão à caridade pública; velhos arrastando as pernas trôpegas em busca de um pedaço de pão para matar a fome; desgraçados a quem a doença não permite ganhar o sustento para cada dia.
A presente comissão, ferida com o triste espetáculo que a pobreza quotidianamente apresenta, entende que é tempo de acabar, dentro do possível, com esta miséria, facultando aos pobres desta freguesia o pão que até agora tem andado esmolando pelas portas.
Entendemos, em suma, que dando esmolas separadamente, a cada pobre que nos bate à porta, continua a mendicidade em escala cada vez maior. Se juntarmos todas as esmolas numa administração cuidadosa, fazendo depois a sua regular distribuição, talvez se possa amenizar mais a desgraça dos mendigos e, sobretudo, evitar o cortejo de infelizes que nos é dado a observar constantemente pelas ruas.
Na Pampilhosa, e na freguesia, as pessoas que podem dar esmolas são suficientes para sustentar, por forma razoável, os pobres que lhe dizem respeito. Um novo encargo? Não. Basta que cada chefe de família faça um cálculo de quanto dá de esmolas em cada mês e que junte essa importância para dar à Comissão de Assistência.
Deixarão os chefes de família de dar esmolas em suas casas, e os mendigos passam a dirigir-se àquela comissão. É uma obra de grande alcance social, onde os remediados têm ocasião de amenizar o sofrimento dos infelizes. (...)
Pelo que nos diz respeito, contamos que essa boa vontade exista em todas as pessoas a quem nos vamos dirigir e que, assim, todos os homens de boa vontade nos ajudem no cumprimento do mais sagrado dever de consciência: - dar de comer a quem tem fome.
Pampilhosa, dezembro de 1938
A comissão organizadora: Francisco Bastos Mourão, Joaquim da Cruz, Firmino Brito da Costa, José Augusto da Silva, Luciano José de Almeida, Rogério Gaspar Rezende» (1)


Esta comissão inicia o seu trabalho a 1 de janeiro de 1939, ano em que constrói a “Casa dos Pobres”. Do relatório das atividades do primeiro ano consta:

«Graças à dedicação de alguns industriais e particulares, e ao seu nunca desmentido espírito benevolente, conseguimos fazer a construção dum edifício próprio para os necessitados irem receber alimento.
Este edifício, cuja fotografia se publica na capa deste relatório, tem as condições necessárias ao fim em vista: cozinha, forno, sala para refeitório, um pequeno pátio com coberto para lenhas e, ao lado, um recanto que se pode ajardinar.
A despesa feita por nós, neste edifício - Esc. 1.070$35 -, é verdadeiramente insignificante se a compararmos com o valor da obra e com as ofertas dos industriais, pois é a estes, sobretudo, que se fica devendo tão importante melhoramento.
Esta dedicação dos industriais encontrou ampla boa vontade na Junta de Freguesia da nossa terra, que cedeu o terreno necessário para a construção, conforme sua ata de 5 de fevereiro de 1939, que passamos a transcrever:
‘Aos 5 dias do mês de fevereiro de 1939, nesta sala das sessões da Junta de Freguesia de Pampilhosa, concelho da Mealhada, encontrando-se todos os vogais afectivos, constituiu-se a mesa em sessão ordinária. Aberta a sessão, foi em primeiro lugar lida a ata anterior que foi aprovada. Nesta sessão resolveu-se, além de outros assuntos:
1 - Ceder à Comissão de Assistência aos Pobres da Freguesia de Pampilhosa (...) o terreno necessário para a construção de um edifício, no sítio da Feira, com a condição de ficar sempre pertença da mesma Comissão de Assistência, composta pelos atuais diretores ou por outros que os substituam regularmente;
2 - No caso de se dissolver a dita Comissão de Assistência, o edifício entrará na posse da Junta de Freguesia, que o destinará a fins de utilidade para a Freguesia de Pampilhosa, dando em todo caso preferência a instituições de beneficência. (...)’
O valor da casa está calculado em 10.905$85, pelo custo dos materiais e da mão-de-obra, verbas que foram oferecidas mas a que damos um valor para ver a sua importância aproximada.
Antes de construirmos o edifício estivemos com o refeitório nos prédios da Ex.ma D. Camila Albuquerque de Sousa e do Sr. Manuel Simões Miranda, que nos fizeram a cedência gratuita pelo tempo necessário, cumprindo-nos registar aqui os nossos agradecimentos pelas facilidades concedidas e pelo espírito de benemerência com que acederam ao nosso apelo, evitando que tivéssemos de pagar renda.» (1)


Passado alguns anos, e com a evolução dos tempos, a “Comissão de Assistência aos Pobres” deixa de fazer sentido, encerrando a sua atividade. O edifício foi, portanto, entregue à Junta de Freguesia, tendo sido depois a sede da Biblioteca fixa n.º 52 da Fundação Calouste Gulbenkian.
Dado o seu estado avançado de degradação, o edifício acabou por ser demolido, dando espaço ao entroncamento aí existente, entre as Ruas da Feira, dos Bombeiros e da Igreja.

(1) in Rezende, Rogério Gaspar - “O Sinal das Três Horas”. Coimbra: Ed. Autor, 1963.

Cineteatro do GIR

O caminho-de-ferro contribuiu indubitavelmente para o progresso da Pampilhosa. A construção da linha da Beira Alta – Figueira da Foz / Vilar Formoso – com o entroncamento ferroviário em Pampilhosa, permitiu um surto de desenvolvimento de grande importância. Foram as fábricas de cerâmica e outras indústrias e armazéns que se instalaram nas proximidades do caminho-de-ferro. Foi a fixação de pessoas que vindas de outras terras, por aqui ficaram. E nesse aspeto, as gentes de Pampilhosa souberam ser acolhedoras. A comunidade soube abrir-se e aceitar todos aqueles que, por bem, se integravam plenamente. A prová-lo são os exemplos numerosos e flagrantes dados por aqueles que, vindos de fora, independentemente de aqui ficarem ou não, muito de si deram a esta terra. Ainda hoje se pode testemunhar as muitas, e diversificadas origens das atuais famílias Pampilhosenses. Praticamente de todo o pais, com mais incidência dos lugares próximos, da região serrana do Bussaco e do Baixo Mondego.

Os industriais vieram em busca da matéria-prima: barro, pez e madeiras principalmente. Os ferroviários, esses, conscientes que constituíam “um bom partido” com o seu razoável ordenado certo, por cá tentaram a sorte com as moças da terra.

A Pampilhosa era terra importante nesse tempo e as suas gentes eram tidas com muito respeito.

Talvez logo pelos começos da linha da Beira Alta, foi colocado na estação de Pampilhosa um senhor de nome Lúcio de Oliveira e Silva, que seria o chefe da estação. A ele se deverá o aparecimento do edifício do teatro na Pampilhosa, pois dele partiu a ideia da sua construção.

Joaquim da Cruz escreveu no jornal “A Defesa” de 1 de junho de 1924: «(...)Lúcio de Oliveira e Silva, a alma mater do edifício que aí está e a quem se deve a ideia da sua edificação, merece que a sua fotografia enfileire ao lado das que se encontram no salão, não só como dever de gratidão mas também como homenagem de artista e de carácter... A ideia partiu dele, nasceu dos improvisados teatros da cocheira das carruagens do caminho-de-ferro e da casa dos Vilanovas (...)» Esta transcrição comprova que, mesmo antes da construção do teatro, já essa arte era aqui representada. (1)

A confirmar a ligação ao meio ferroviário está a formação da Associação "Grémio de Instrução e Recreio", a 5 de de abril de 1906, no escritório do chefe da estação dos Caminhos de Ferro da Beira Alta, realizada pelo notário público Francisco Seabra de Vasconcellos, que se deslocou a pé, da Mealhada, para realizar a escritura desta associação. Nos primeiros anos de vida, o teatro sempre esteve presente com várias representações de grupos amadores. O Grupo Dramático de Beneficência, criado nos anos de 1920, marcou um grande ciclo de representações, das quais se pode destacar a peça "O Poço do Bispo". Entre os anos de 1960 e 1974, o Grupo Cénico da Liga dos Amigos da Pampilhosa levou à cena peças como "A Bruxa" , "João Ratão" , "Casa de Pais", etc. Para além dos grupos de teatro amador da Pampilhosa e da sua região, muitas outras companhias de grupos profissionais nacionais tiveram as suas representações no teatro da Pampilhosa. A Pampilhosa era, na altura, um grande centro ferroviário, onde se cruzavam, e cruzam ainda, a linha do Norte e a linha da Beira Alta, com uma ligação que ia até à Figueira da Foz. Muitas companhias de teatro nacionais, nas suas representações fora das grandes cidades, passavam pela Pampilhosa e nela tinham de pernoitar, aguardando as ligações dos comboios para os seus destinos. Esta situação favoreceu, e porque havia um teatro nesta localidade, a representação de inúmeras peças de teatro, que atraía a população de toda a região bairradina. Durante largas dezenas de anos, na Pampilhosa, se representou teatro do melhor que se produzia no nosso país. São memórias que não devemos esquecer. Voltar a dar vida cultural a este cineteatro é algo de urgente e necessário.

Depois do teatro, o cinema chegou à Pampilhosa em 1924, com a criação da Empresa Cinematográfica Pampilhosense. Era necessário energia elétrica, a qual foi fornecida pela fábrica de Cerâmica Mourão, Teixeira Lopes & Cia. Nos primeiros tempos, por dificuldades técnicas, as exibições não foram da melhor qualidade, o que deu origem a prejuízos financeiros. Esta situação viria a ser resolvida em 1925 com a aquisição de novos equipamentos e a exibição do filme "O aviso na Porta" marca uma nova etapa do verdadeiro cinema. (2)

O processo de reabilitação do edifício mantém-se no ano de 2021, à data deste texto.

(1) in http://freguesiadepampilhosa.blogspot.com/p/patrimonio.html
(2) in https://cinemapampilhosa.blogs.sapo.pt/tag/a+hist%C3%B3ria+do+cine-teatro

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